História Ilustrada Do Cristianismos
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Resenha do Livro: A História Ilustrada do Cristianismo. Vol 1. de Justo González

Li o livro “A História Ilustrada do Cristianismo, vol. 1” e posso dizer que não é apenas um livro, mas uma biografia cativante da Igreja, um retrato profundo na vida, fé e desafios enfrentados pelos primeiros cristãos. Longe de ser um relato distante de tempos passados, esta obra demonstra a importância vital de compreender a história do cristianismo para iluminar o presente e o futuro da fé.

Neste primeiro volume, Justo González conduz o leitor por um período crucial, desde o alvorecer do cristianismo até o marco histórico do fim da perseguição romana sob o governo de Constantino. Abordando desde o contexto histórico do Império Romano até os desafios teológicos enfrentados pela Igreja primitiva, o autor revela como os alicerces da fé foram testados e fortalecidos durante a era dos mártires.

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Cronologia:

A seção “Cronologia” em “A História Ilustrada do Cristianismo vol. 1” apresenta uma linha do tempo detalhada, enriquecendo a compreensão do leitor sobre os primeiros séculos do cristianismo. A cronologia destaca datas, personagens e eventos cruciais da antiguidade, com foco especial nos bispos de Roma, figuras centrais na trajetória da Igreja.

É importante ressaltar que, como em qualquer registro histórico da antiguidade, a precisão absoluta em relação a datas e eventos anteriores a Clemente, um dos primeiros bispos de Roma, é um desafio. O autor utiliza interrogações para indicar datas incertas, com o número de interrogações sinalizando o grau de incerteza. A inclusão dos bispos de Roma na cronologia reflete sua importância na história posterior da Igreja, mesmo considerando que as informações sobre o período anterior a Clemente sejam incertas.

A cronologia também abrange autores não-cristãos, identificados entre parênteses, demonstrando a interação entre o cristianismo nascente e o contexto histórico e cultural mais amplo. Adicionalmente, a cronologia inclui personagens, obras e eventos não mencionados no texto principal do volume, permitindo ao leitor contextualizar informações adicionais que possam encontrar em outras fontes.

Vale salientar que a fonte fornecida não apresenta a “Cronologia” em si, apenas introduz a seção. No entanto, o texto deixa claro que a cronologia será um recurso valioso para situar os eventos-chave e figuras importantes dentro do escopo do primeiro volume da obra, que abrange o período crucial do cristianismo primitivo até o fim da perseguição romana.

Linha do Tempo Detalhada:

Antes do Século I d.C.:

  • Séculos Anteriores: Judaísmo se divide entre puristas e helenistas.
  • Século VII a.C.: Construção de um templo judaico em Elefantina, Egito.
  • Século III a.C.: Início da influência do sincretismo na bacia do Mediterrâneo.
  • Século II a.C.: Construção de outro templo judaico no Delta do Nilo. Rebelião dos Macabeus contra imposição da cultura grega e deuses pagãos.
  • 63 a.C.: Conquista romana da Judéia. Pompeu depõe Aristóbulo II, o último dos Macabeus.
  • 40 a.C.: Herodes, com ascendência Macabeu por parte de sua esposa, é nomeado rei da Judéia pelos romanos.

Século I d.C.:

  • Início do Século I d.C.: Crescente número de judeus na “Diáspora”, dispersos pelo Império Romano, com comunidades e sinagogas em diversas cidades.
  • Anos 30 d.C.: Ministério, morte e ressurreição de Jesus. Início da Igreja em Jerusalém. Dispersão inicial dos cristãos para a Judéia e Samaria após o martírio de Estevão.
  • Anos 40 d.C.: Conversão de Saulo de Tarso (Paulo). Início da missão aos gentios com Felipe, Pedro e Cornélio.
  • Anos 50 d.C.: Primeiras viagens missionárias de Paulo. Crescente tensão entre cristianismo e judaísmo.
  • Anos 60 d.C.: Paulo escreve cartas importantes às igrejas. Nero inicia perseguição aos cristãos em Roma (após o incêndio de 64 d.C.).
  • Ano 70 d.C.: Destruição de Jerusalém pelos romanos, liderados por Tito.
  • Anos 80-90 d.C.: Provável martírio de Pedro e Paulo em Roma. Domiciano exige dos judeus o imposto anteriormente enviado ao Templo de Jerusalém, gerando perseguição.

Século II d.C.:

  • Início do Século II d.C.: Expansão do cristianismo pelo Império Romano, principalmente através de cristãos comuns e redes de comércio.
  • Anos 110-113 d.C.: Correspondência entre Plínio, o Jovem, governador da Bitínia, e o Imperador Trajano sobre como lidar com os cristãos.
  • Anos 110-117 d.C.: Martírio de Inácio, bispo de Antioquia, em Roma. Cartas de Inácio revelam a fé e a organização da igreja primitiva.
  • ~150 d.C.: Martírio de Policarpo, bispo de Esmirna.
  • ~160 d.C.: Martírio de Justino Mártir em Roma.
  • ~155 d.C.: Surgimento do montanismo, movimento rigorista que defendia uma nova era do Espírito Santo.
  • Final do Século II d.C.: Aumento das tensões entre o cristianismo e o Império Romano. Surgem as primeiras grandes heresias, como o gnosticismo e o marcionismo.

Século III d.C.:

  • Início do Século III d.C.: Apogeu da literatura apologética cristã, defendendo a fé contra as acusações e difamações.
  • ~200 d.C.: Atuação de Tertuliano, teólogo que defendia a fé cristã e se opôs aos hereges. Ele posteriormente se junta ao montanismo.
  • ~202 d.C.: Sétimo Severo inicia perseguição aos cristãos que se recusam a participar do culto ao “Sol Invicto”.
  • Anos 249-251 d.C.: Perseguição sob Décio. Cristãos são obrigados a obter certificados de sacrifício aos deuses romanos.
  • ~250 d.C.: Controvérsia sobre a readmissão na igreja dos “caídos” (cristãos que apostataram durante a perseguição).
  • Anos 257-260 d.C.: Nova perseguição sob Valeriano.
  • Final do Século III d.C.: Período de relativa paz para os cristãos.
  • Anos 303-311 d.C.: “Grande Perseguição” sob Diocleciano e Galério. A perseguição mais sistemática e brutal até então.

Após o Século III d.C.:

  • Início do Século IV d.C.: Constantino se torna Imperador do Ocidente e, em 313 d.C., emite o Édito de Milão, concedendo liberdade religiosa aos cristãos, pondo fim à perseguição no Império Romano.

Elenco de Personagens:

1. Personagens Bíblicos:

  • Jesus: Fundador do Cristianismo.
  • Pedro: Apóstolo, considerado o primeiro Papa pela tradição católica. Pregou aos judeus e teve papel fundamental na igreja primitiva.
  • João: Apóstolo, irmão de Tiago. Autor do Evangelho de João, cartas e Apocalipse.
  • Paulo: Apóstolo dos gentios. Escreveu cartas que se tornaram parte fundamental do Novo Testamento.
  • Tiago (irmão de João): Apóstolo, martirizado por Herodes Agripa I.
  • Tiago (irmão de Jesus): Líder da igreja em Jerusalém.
  • Estevão: Primeiro mártir cristão, apedrejado por sua fé.
  • Felipe: Pregador e evangelista, responsável pela conversão do eunuco etíope.
  • Cornélio: Centurião romano, considerado o primeiro gentio a se converter ao Cristianismo.

2. Imperadores Romanos:

  • César Augusto: Imperador durante o nascimento de Jesus.
  • Herodes, o Grande: Rei da Judéia nomeado por Roma.
  • Tibério: Imperador durante o ministério de Jesus e início da igreja.
  • Nero: Primeiro imperador a perseguir os cristãos em Roma, após o grande incêndio.
  • Tito: General romano, posteriormente imperador, responsável pela destruição de Jerusalém no ano 70 d.C.
  • Domiciano: Imperador que intensificou a perseguição aos judeus e, por extensão, aos cristãos.
  • Trajano: Imperador durante o governo de Plínio, o Jovem. Sua correspondência com Plínio estabeleceu uma base legal para a perseguição aos cristãos.
  • Marco Aurélio: Imperador filósofo que, apesar de sua sabedoria, permitiu a perseguição aos cristãos.
  • Sétimo Severo: Imperador que promoveu o culto ao “Sol Invicto” e perseguiu os cristãos que se recusaram a participar.
  • Décio: Imperador que implementou uma perseguição sistemática, exigindo que todos os cidadãos romanos oferecessem sacrifícios aos deuses romanos.
  • Valeriano: Imperador que continuou a perseguição de Décio.
  • Diocleciano: Imperador que iniciou a “Grande Perseguição”, a mais violenta contra os cristãos.
  • Maximiano: Co-imperador com Diocleciano no Ocidente.
  • Galério: César sob Diocleciano, implacável perseguidor dos cristãos.
  • Constâncio Cloro: César sob Maximiano, pai de Constantino, e mais tolerante com os cristãos.
  • Constantino: Filho de Constâncio Cloro. Tornou-se imperador e, em 313 d.C., promulgou o Édito de Milão, concedendo liberdade religiosa aos cristãos.
  • Majêncio: Rival de Constantino pelo controle do Império Romano Ocidental.
  • Maximino Daza: Um dos quatro imperadores da Tetrarquia, perseguidor dos cristãos.
  • Licínio: Augusto do Oriente, governou com Constantino.

3. Líderes Cristãos:

  • Inácio de Antioquia: Bispo de Antioquia, martirizado em Roma. Suas cartas são importantes documentos sobre a fé, a organização e a vida da igreja primitiva.
  • Policarpo de Esmirna: Bispo de Esmirna, discípulo de João, martirizado por sua fé.
  • Justino Mártir: Filósofo e apologista cristão, martirizado em Roma. Defendeu o cristianismo contra as acusações pagãs e buscou pontos de contato com a filosofia grega.
  • Irineu de Lyon: Bispo de Lyon, teólogo que combateu o gnosticismo e defendeu a unidade da fé cristã.
  • Clemente de Alexandria: Teólogo e líder cristão em Alexandria.
  • Tertuliano: Teólogo e escritor prolífico do Norte da África. Inicialmente crítico do montanismo, mas posteriormente se juntou a ele.
  • Orígenes: Teólogo e estudioso bíblico de Alexandria. Conhecido por sua erudição e por seus comentários bíblicos.
  • Cipriano de Cartago: Bispo de Cartago, importante figura na controvérsia sobre a readmissão dos “caídos” na igreja.
  • Novaciano: Presbítero romano que se opôs à readmissão dos “caídos” e iniciou um cisma na igreja.

4. Outras Figuras:

  • Plínio, o Jovem: Governador romano da Bitínia. Sua correspondência com o imperador Trajano fornece informações valiosas sobre a situação dos cristãos no início do século II.
  • Montano: Fundador do montanismo. Pregava uma nova era do Espírito Santo e um estilo de vida mais rigoroso.
  • Priscila e Maximila: Duas profetisas que se uniram a Montano.
  • Márciom: Líder religioso que rejeitava o Antigo Testamento e propunha uma versão dualista do cristianismo.
  • Celso: Filósofo e crítico do cristianismo. Sua obra “Discurso Verdadeiro” contém uma das mais antigas críticas pagãs ao cristianismo.
  • Frontón: Reitor e escritor romano, crítico do cristianismo.

4. Grupos e Movimentos:

  • Fariseus: Grupo religioso judaico que enfatizava a observância estrita da Lei.
  • Saduceus: Grupo religioso judaico composto pela elite sacerdotal e aristocrática.
  • Zelotes: Grupo político-religioso judaico que defendia a resistência armada contra Roma.
  • Essênios: Seita judaica que vivia em comunidades isoladas e buscava pureza ritual.
  • Gnósticos: Diversos grupos que defendiam a existência de um conhecimento secreto (gnosis) para alcançar a salvação.
  • Marcionitas: Seguidores de Márciom.
  • Montanistas: Seguidores de Montano.

I. Cristianismo e História:

Compreender o cristianismo exige um mergulho profundo em sua história, pois a fé cristã está intrinsecamente entrelaçada com a narrativa histórica. A Bíblia, tanto no Antigo como no Novo Testamento, utiliza a história para revelar a Deus e Seus planos para a humanidade.

No Antigo Testamento, os livros históricos, da Lei (como Gênesis e Êxodo) e dos profetas narram a história da interação de Deus com Seu povo, revelando Sua natureza e Seus propósitos. Sem essa compreensão histórica, a revelação divina permanece obscura.

O Novo Testamento também enfatiza a história, com os Evangelhos narrando a vida de Jesus dentro de um contexto histórico específico. Lucas, em Atos dos Apóstolos, demonstra como a presença de Deus continuou após a ascensão de Jesus, atuando através do Espírito Santo na vida da Igreja primitiva. Lucas conecta o nascimento de Jesus com o contexto histórico do Império Romano e o governo de César Augusto, evidenciando que o evangelho não é um evento isolado, mas está inserido na história. Atos, por sua vez, narra a expansão da Igreja, mostrando como o Espírito Santo guia os primeiros cristãos.

A importância da história não termina com o Novo Testamento. Ao longo dos séculos, o Espírito Santo continuou a agir através da Igreja, mesmo em meio a falhas humanas e períodos obscuros. Através da história da Igreja, vemos como Deus guia Seus seguidores, moldando a fé e transmitindo o evangelho através das gerações. É essencial lembrar que a história do cristianismo é a história da ação do Espírito Santo entre pessoas imperfeitas.

II. A Plenitude do Tempo: O Palco Preparado para a Chegada do Messias

A chegada de Jesus e o subsequente nascimento da igreja não foram eventos aleatórios, mas o ápice de um processo histórico cuidadosamente orquestrado por Deus. O apóstolo Paulo reconhece essa preparação divina ao usar a frase “plenitude do tempo” (Gálatas 4:4). Diversos fatores convergiram para criar o cenário ideal para a propagação do cristianismo.

O judaísmo, tanto na Palestina como na Diáspora (dispersão), desempenhou um papel crucial nesse processo. A tradução do Antigo Testamento para o grego, a Septuaginta, tornou as escrituras hebraicas acessíveis a um público muito mais amplo. A presença de sinagogas em todo o Império Romano proporcionou espaços para o debate religioso e a difusão da mensagem cristã.

O Império Romano, com sua infraestrutura desenvolvida (e.g., estradas) e relativa paz interna (Pax Romana), facilitou a disseminação do evangelho. Mercadores, viajantes e até mesmo escravos se tornaram involuntários propagadores da nova fé. O sincretismo religioso da época, que buscava combinar diferentes crenças, preparou o terreno para a aceitação de um novo deus, embora também representasse um desafio à singularidade do Deus cristão. Paradoxalmente, a ascensão do culto imperial, que exigia lealdade ao imperador como divindade, criaria o cenário para os primeiros conflitos entre o cristianismo e o Império Romano.

É importante ressaltar que a “plenitude do tempo” não implicava em um mundo pronto para abraçar o cristianismo de braços abertos. Pelo contrário, a nova fé enfrentaria oposição tanto do judaísmo, que a via como heresia, como do Império Romano, que a perceberia como ameaça à ordem estabelecida.

III. A Igreja de Jerusalém: Entre a Unidade e a Diversidade

A igreja de Jerusalém, berço do cristianismo, era um microcosmo da sociedade judaica do século I, abrigando diferentes grupos de judeus convertidos que buscavam viver sua nova fé. Essa diversidade, porém, foi fonte de tensões desde o início. Atos 6:1 menciona a existência de “gregos” e “hebreus” na comunidade. Esses grupos representavam diferentes vertentes dentro do judaísmo: os “hebreus”, mais tradicionais, e os “gregos”, mais abertos à cultura helenística. Essa diferença cultural se refletiu em desavenças administrativas e na percepção do papel do Templo.

Apesar das tensões internas, a igreja de Jerusalém compartilhava práticas religiosas comuns, arraigadas em sua herança judaica. Os cristãos primitivos continuavam a observar o sábado e frequentar o Templo, reconhecendo a importância da Lei. Simultaneamente, se reuniam no primeiro dia da semana para “partir o pão” em memória da ressurreição de Jesus. Essa prática, central no culto cristão primitivo, refletia a alegria e a esperança que a ressurreição inspirava.

A convivência pacífica entre os diferentes grupos cristãos em Jerusalém seria abalada pela crescente pressão do nacionalismo judaico e pela suspeita romana. A associação do cristianismo com a figura de Jesus, descendente de Davi e condenado pelos romanos, gerava desconfiança. A perseguição se intensificou com a liderança de Tiago, irmão de Jesus, e posteriormente de Simeão, ambos da linhagem davídica.

A perseguição aos cristãos helenizantes, iniciada com o martírio de Estevão, culminou na dispersão da igreja de Jerusalém e na expansão do cristianismo para além das fronteiras judaicas. Essa dispersão, inicialmente motivada pela perseguição, se tornaria um marco na história do cristianismo, levando a mensagem do Evangelho a novos territórios e preparando o caminho para a missão aos gentios.

IV. A Missão aos Gentios: Expandindo os Horizontes da Fé

A expansão do cristianismo para além do judaísmo, alcançando os gentios (não judeus), marcou um ponto de virada crucial na história da igreja. Os primeiros indícios dessa expansão podem ser encontrados na obra de Felipe, um dos líderes da igreja de Jerusalém. Atos 8 relata a conversão de Simão, o mago, e de um eunuco etíope por meio da pregação de Felipe, indicando a crescente presença do cristianismo fora da comunidade judaica.

Um evento decisivo na missão aos gentios foi a conversão de Cornélio, um centurião romano, e seu batismo por Pedro (Atos 10). Esse episódio, marcado por visões divinas e pela efusão do Espírito Santo sobre Cornélio e sua família, demonstrou que a mensagem cristã se destinava a todas as nações, rompendo as barreiras étnicas e religiosas. A igreja de Jerusalém, inicialmente hesitante, reconheceu a ação de Deus na conversão de Cornélio, abrindo caminho para a difusão do evangelho entre os gentios.

Nesse contexto, a obra missionária do apóstolo Paulo se destaca por sua extensão e impacto. Paulo, inicialmente um perseguidor dos cristãos, teve uma experiência transformadora que o levou a se tornar um fervoroso pregador do evangelho, especialmente entre os gentios (Atos 9). Suas viagens missionárias, relatadas em detalhes no livro de Atos, o levaram a diversas regiões do Império Romano, fundando igrejas e disseminando a mensagem cristã. É importante reconhecer, porém, que a expansão do cristianismo não se limitou à ação de missionários como Paulo. Atos sugere que a nova fé se espalhava também por meio de cristãos comuns, que compartilhavam sua fé em suas viagens e contatos cotidianos .

A crescente presença de gentios na igreja desencadeou um debate crucial sobre a relação entre a fé cristã e a Lei de Moisés. Enquanto alguns defendiam a necessidade da circuncisão e da observância da Lei para a salvação, Paulo argumentava que a fé em Jesus Cristo era suficiente (Gálatas 2). Esse debate, que gerou tensões na igreja primitiva, foi abordado no Concílio de Jerusalém, relatado em Atos 15. O concílio concluiu que os gentios convertidos não eram obrigados a se submeter à circuncisão ou à Lei mosaica em sua totalidade, abrindo caminho para a integração plena dos gentios na comunidade cristã.

V. Os Primeiros Conflitos com o Estado: Do Recôndito da Fé à Arena da Perseguição

Nos primeiros anos, o cristianismo era visto pelas autoridades romanas como uma seita judaica, não representando uma ameaça distinta. A política romana em relação às religiões conquistadas era de tolerância, buscando integrar os povos conquistados através de um sincretismo religioso e da veneração ao imperador. Essa postura, entretanto, se chocava com a fé monoteísta judaica, que não se curvava à idolatria. Os cristãos, inicialmente considerados parte do judaísmo, herdavam essa imunidade, existindo sob a proteção da lei judaica.

Essa percepção começou a mudar com o incêndio de Roma em 64 d.C., durante o governo de Nero. O imperador, buscando aplacar a fúria popular e desviar a culpa de si, encontrou nos cristãos um bode expiatório conveniente. Acusados de ateísmo e de ódio à raça humana por se oporem ao culto aos deuses romanos e à participação na vida social pagã, os cristãos foram presos, torturados e executados publicamente em espetáculos cruéis no circo romano. Tácito, historiador da época, descreve em detalhes os horrores sofridos pelos cristãos, destacando a “refinada crueldade” de Nero e a percepção negativa que a sociedade romana já nutria contra a fé cristã.

Embora a perseguição de Nero tenha se concentrado em Roma, ela marcou um ponto de inflexão nas relações entre cristianismo e Império Romano. O edito promulgado por Nero, embora abolido em outros aspectos após sua morte, permaneceu em vigor no que se referia aos cristãos. Isso significava que a prática cristã se tornava ilegal, e os cristãos, embora não fossem ativamente perseguidos, viviam sob constante ameaça de acusação e punição.

Essa ameaça se concretizou durante o reinado de Domiciano, no final do século I. Obsessivo pela restauração dos valores tradicionais romanos e pela unidade religiosa do Império, Domiciano via nos cristãos, que se recusavam a adorar os deuses romanos e ao próprio imperador, um perigo à ordem estabelecida. A perseguição de Domiciano se estendeu também aos judeus, cobrando impostos exorbitantes e punindo aqueles que se recusavam a enviar a oferta anual que antes era destinada ao Templo de Jerusalém. Essa perseguição, embora não tão brutal quanto a de Nero, demonstrou a crescente desconfiança do Império em relação ao cristianismo e sua disposição em usar a força para conter sua expansão. A associação com “costumes judaicos”, ainda presente nesse período, colocava os cristãos sob a mira de um Império cada vez mais intolerante e repressivo.

VI. A Perseguição no Século Segundo: Entre a Tolerância e o Martírio

O século II testemunhou uma intensificação na documentação e compreensão da relação complexa entre Roma e os cristãos. Enquanto a perseguição sistemática não era a norma, a sombra da suspeita e da delação pairava sobre os fiéis. Um documento crucial para entender esse período é a correspondência entre Plínio, o Jovem, governador da Bitínia, e o Imperador Trajano. Em suas cartas, Plínio expressa sua incerteza sobre como lidar com as acusações contra os cristãos. Ele relata ter oferecido aos acusados a chance de renunciar à sua fé, adorando os deuses romanos e amaldiçoando Cristo. Aqueles que se recusavam, eram presos e condenados por desobediência, e não por serem cristãos. A resposta de Trajano delineia a política imperial da época: não perseguir ativamente, mas punir quando acusados e comprovada a fé cristã. Essa postura, entre a tolerância e a punição, marcaria todo o século II.

Em meio a essa ambiguidade, surgem relatos inspiradores de fé inabalável diante da morte. Inácio, bispo de Antioquia, condenado à morte por volta de 107 d.C., deixou um legado comovente em suas cartas escritas a caminho do martírio em Roma. Nelas, ele expressa serenidade e até alegria por unir-se a Cristo em seu sofrimento, encorajando as comunidades cristãs a permanecerem firmes na fé. Outro exemplo marcante é o martírio de Policarpo, bispo de Esmirna, por volta de 155 d.C. Suas últimas palavras, antes de ser consumido pelas chamas, ecoam a fé inabalável: “Senhor Deus Soberano (…) uou-te graças, porque me consideraste digno deste momento, para que, junto a teus mártires, eu possa ser parte no cálice de Cristo. (…) Por isso te bendigo a te glorifico. (…) Amém.” . Esses relatos, além de inspiradores, lançam luz sobre o debate interno da igreja primitiva sobre a busca voluntária pelo martírio, como demonstrado nas “atas” do martírio de Policarpo, que questionam a validade do sacrifício motivado pela vontade individual, e não divina.

A perseguição sob o imperador filósofo Marco Aurélio (161-180 d.C.) ilustra a fragilidade da posição dos cristãos. Marco Aurélio, embora admirasse a disposição cristã para o sacrifício, a atribuía à teimosia, e não à razão. Diante de desastres naturais e crises no Império, a crença de que os cristãos atraíam a ira dos deuses reacendeu a perseguição. Embora não haja evidências de que Marco Aurélio tenha incitado diretamente a violência, ele a tolerou, vendo na supressão dos cristãos um meio de apaziguar os deuses e restaurar a ordem. Esse período conturbado reforça a natureza imprevisível da relação entre Roma e os cristãos, sempre sujeita às flutuações políticas e aos humores da sociedade.

A documentação histórica do século II, embora fragmentada, revela um período de desafios e consolidação da fé. As cartas de Inácio, o martírio de Policarpo, a correspondência entre Plínio e Trajano, e a postura de Marco Aurélio, juntos, compõem um mosaico complexo da perseguição no século II. A fé cristã, embora testada pelo fogo da adversidade, demonstrava sua resiliência, encontrando no martírio um testemunho poderoso que ecoaria pelos séculos seguintes.

VII. A Defesa da Fé: Rebatendo Acusações e Dialogando com a Cultura Greco-Romana

No século II, os cristãos enfrentaram não apenas a ameaça da perseguição física, mas também uma batalha ideológica contra as difamações e distorções de suas crenças. Rumores infundados e críticas vindas de pagãos cultos colocavam a fé cristã sob constante escrutínio. Diante dessa realidade, surgiram os apologistas cristãos, como Aristides, Taciano, Atenágoras e Justino Mártir, dedicados a defender o cristianismo utilizando a lógica, a filosofia e elementos da própria cultura greco-romana.

Uma das acusações mais comuns era a de ateísmo. A recusa em adorar os deuses romanos e o imperador era vista como uma afronta à ordem social e religiosa. Para rebater essa acusação, os apologistas recorriam aos próprios filósofos e poetas gregos que questionavam a natureza e a moralidade dos deuses tradicionais. Citavam trechos que expunham a falibilidade e a imoralidade atribuídas aos deuses, argumentando que os cristãos, ao contrário, cultuavam um Deus único, criador e ordenador do universo. Taciano, por exemplo, argumentava que adorar qualquer elemento da criação, como o Sol ou os astros, seria um erro, pois o verdadeiro Deus transcende suas próprias obras.

Outra acusação infundada era a de canibalismo, oriunda de interpretações deturpadas da Ceia do Senhor. Acusações de imoralidade e incesto também circulavam, baseadas em boatos sobre as reuniões secretas dos cristãos. Diante dessas difamações, os apologistas se viam obrigados a explicar a natureza simbólica da Ceia, enfatizando o amor fraternal e a pureza moral que guiavam a vida cristã. Justino Mártir, em suas apologias, convida os imperadores a investigarem a vida e os costumes dos cristãos, confiando que a verdade se revelaria por si mesma.

Os apologistas se deparavam com o desafio de conciliar a fé cristã com a cultura greco-romana. Enquanto alguns, como Taciano, assumiam uma postura de total rejeição ao paganismo, acusando os gregos de plagiarem a sabedoria dos “bárbaros” (judeus e cristãos), outros, como Justino Mártir, buscavam pontos de contato entre a filosofia clássica e a fé cristã. Justino, inspirado por sua própria trajetória intelectual, via no cristianismo a “verdadeira filosofia”, identificando na razão e na busca pela verdade ferramentas que aproximavam o cristianismo da filosofia. Esse diálogo, embora desafiador, foi crucial para apresentar o cristianismo como uma fé racional e digna de respeito no contexto da cultura greco-romana.

VIII. O Depósito da Fé: Enfrentando Heresias e Consolidando a Identidade Cristã.

O século II marcou um período crucial na história do cristianismo, desafiado não apenas pela perseguição externa, mas também por conflitos internos que questionavam a própria essência da fé. Doutrinas divergentes, como o gnosticismo e o marcionismo, ganharam força, levando a igreja a buscar mecanismos para definir e defender o “depósito da fé” recebido dos apóstolos.

O gnosticismo, mais do que uma doutrina unificada, representava um conjunto de crenças sincréticas que se infiltravam no cristianismo. Sua característica mais marcante era a ênfase na “gnose”, um conhecimento secreto restrito a poucos iniciados e que prometia a salvação. Os gnósticos desprezavam o mundo material, visto como obra de um deus inferior, e buscavam a libertação da alma aprisionada no corpo. Essa visão dualista os levava a rejeitar a encarnação de Cristo, considerando-a uma ilusão. Diversas correntes gnósticas proliferaram, cada uma com suas interpretações e evangelhos apócrifos. Márciom, embora não se considere um gnóstico, compartilhava a aversão ao mundo material e, principalmente, ao Deus do Antigo Testamento, considerado um deus cruel e vingativo. Em contraste, exaltava o Deus de Jesus Cristo, um deus de amor e misericórdia, revelado no Novo Testamento. Para Márciom, o Antigo Testamento deveria ser totalmente rejeitado. Ele defendia um cânon reduzido, aceitando apenas o Evangelho de Lucas e as cartas de Paulo, purificadas de qualquer referência positiva ao judaísmo.

A resposta da igreja a esses desafios internos foi crucial para sua unidade e identidade. Diante da proliferação de evangelhos gnósticos e da rejeição marcionita ao Antigo Testamento, a igreja se viu compelida a definir um cânon bíblico, uma lista de escritos inspirados e autoritativos. Essa necessidade de definir um cânon não surgiu de um desejo de rigidez, mas da necessidade de reafirmar a continuidade da fé cristã com a história de Israel, revelada no Antigo Testamento, e combater as interpretações distorcidas e os evangelhos secretos. O cânon que gradualmente se consolidou, incluindo os quatro Evangelhos, Atos, as cartas paulinas e outros escritos apostólicos, refletia a tradição apostólica e a fé compartilhada pelas igrejas. Além do cânon, a igreja formulou o “símbolo da fé”, que evoluiu para o Credo Apostólico. Essa declaração concisa e sistemática das crenças fundamentais, como a criação, a Trindade e a ressurreição da carne, servia como uma forma de instrução e um antídoto contra as heresias. Usado inicialmente no batismo, o Credo afirmava a divindade de Cristo, sua encarnação, morte e ressurreição, contrapondo-se diretamente às visões gnósticas e marcionitas. A igreja também recorreu ao argumento da sucessão apostólica para se defender das alegações de posse de uma tradição secreta. Argumentando que os apóstolos haviam confiado a liderança da igreja a seus sucessores, a igreja afirmava que a verdadeira doutrina não se encontrava em ensinamentos ocultos, mas na tradição transmitida pelos bispos em linhagem direta com os apóstolos.

Em suma, a resposta da igreja aos desafios do gnosticismo e do marcionismo, consolidando o cânon bíblico, o Credo Apostólico e a sucessão apostólica, demonstra a capacidade de defender a fé, preservar sua unidade e transmitir o “depósito da fé” às futuras gerações. Esse processo, iniciado em meio a crises e debates, foi essencial para a formação da identidade cristã e moldou o curso do cristianismo ao longo dos séculos.

IX. Os Mestres da Igreja: a Fé no Século II

O final do século II e início do século III testemunharam o surgimento de grandes pensadores cristãos que se dedicaram a confrontar as heresias e aprofundar a compreensão da fé. Irineu de Leão, Clemente de Alexandria, Tertuliano de Cartago e Orígenes de Alexandria emergem como figuras centrais nesse período, cada um com sua própria abordagem e ênfase. Suas obras lançam luz sobre a teologia cristã em desenvolvimento e sua interação com a filosofia grega, enquanto enfrentavam os desafios do gnosticismo e do montanismo.

Irineu de Leão, discípulo de Policarpo, que por sua vez fora discípulo do apóstolo João, priorizava a tradição apostólica transmitida através da sucessão episcopal. Sua principal obra, “Contra as Heresias”, é uma defesa vigorosa da fé contra as distorções gnósticas. Irineu enfatizava a unidade de Deus, criador do mundo material e espiritual, rebatendo o dualismo gnóstico. Para ele, a salvação não residia em conhecimento secreto (gnose), mas na obediência a Deus e na fé em Jesus Cristo, o Verbo encarnado.

Clemente de Alexandria, por outro lado, demonstrava grande abertura à filosofia grega, vendo nela uma preparação para o Evangelho. Clemente argumentava que a filosofia, assim como a lei mosaica para os judeus, conduzia os gregos à verdade revelada em Cristo. Ele buscava harmonizar fé e razão, enxergando na filosofia um instrumento valioso para a compreensão da fé. Sua obra “Exortação aos Pagãos” ilustra essa abordagem, convidando os intelectuais pagãos a encontrar em Cristo o cumprimento de suas buscas filosóficas.

Tertuliano de Cartago, conhecido por seu estilo contundente e polêmico, assumia uma postura mais rígida em relação à filosofia pagã. Sua famosa frase “Que tem Atenas a ver com Jerusalém?” expressa sua convicção de que a fé cristã era suficiente em si mesma, dispensando qualquer conciliação com a filosofia grega. Tertuliano defendia a autoridade da tradição apostólica, transmitida pela igreja, como única fonte confiável de doutrina, opondo-se a qualquer interpretação particular das Escrituras.

Orígenes de Alexandria, discípulo de Clemente, também valorizava a filosofia grega, especialmente o neoplatonismo, mas buscava integrá-la ao cristianismo de forma crítica e criativa. Orígenes destacou-se por sua erudição bíblica, produzindo comentários, sermões e a “Hexapla”, uma edição comparativa do Antigo Testamento em diferentes versões. Sua obra “De Principiis” aborda temas complexos como a Trindade, a encarnação e a escatologia, demonstrando a profundidade e originalidade de seu pensamento.

Os mestres da igreja do século II, apesar de suas diferenças, compartilhavam o objetivo comum de defender e propagar a fé cristã em um contexto desafiador. Suas obras, além de refutarem heresias, estabeleceram as bases para o desenvolvimento da teologia cristã nos séculos seguintes, influenciando profundamente a forma como a igreja compreendeu a si mesma e sua missão no mundo.

X. A Perseguição no Século Terceiro: Entre a Resistência e a Apostasia

O século III marcou um período conturbado para os cristãos, com a intensificação das perseguições sob os imperadores Sétimo Severo e Décio. Diferentemente das perseguições esporádicas do século II, Sétimo Severo implementou uma política que visava coibir ativamente a expansão do cristianismo, proibindo conversões sob pena de morte. Essa mudança elevou o risco para os novos convertidos e para os mestres cristãos, como Clemente de Alexandria, que precisou fugir para evitar a perseguição. O martírio de Perpétua e Felicidade, cinco jovens catecúmenos condenados por se recusarem a renegar a fé, ilustra a severidade da repressão aos novos cristãos nesse período.

A perseguição de Décio, por sua vez, assumiu um caráter ainda mais insidioso. O objetivo não era apenas punir os cristãos, mas forçá-los à apostasia através de torturas e coação, buscando assim restaurar os cultos tradicionais e fortalecer a identidade romana. Essa abordagem gerou um dilema moral para a igreja: como lidar com os “caídos”, cristãos que, sob extrema pressão, haviam renunciado à fé? A controvérsia dividiu a igreja, com diferentes lideranças defendendo posturas mais flexíveis ou rigorosas em relação à reintegração dos “caídos”.

Cipriano de Cartago, bispo influenciado pelo rigor de Tertuliano, defendia uma postura mais compreensiva, embora não isenta de restrições. Cipriano argumentava que a reintegração dos “caídos” deveria ser precedida de um período de penitência proporcional à gravidade da falta, com distinção entre aqueles que haviam sacrificado aos deuses e aqueles que apenas haviam cedido à pressão para obter certificados falsos de sacrifício. Essa postura, embora marcada pela misericórdia, também refletia a preocupação em manter a pureza da igreja.

Em contraste, Novaciano, em Roma, liderou um movimento rigorista que condenava qualquer forma de conciliação com os “caídos”. Para Novaciano, a igreja não deveria comprometer sua santidade através do perdão, o que resultou em um cisma que se prolongou por gerações. A questão dos “caídos” evidenciou a tensão entre a misericórdia e a justiça, o perdão e a disciplina, que marcaria a reflexão ética e a prática penitencial da igreja nos séculos seguintes. As diferentes abordagens de Cipriano e Novaciano ilustram a complexidade desse dilema e sua relevância para a compreensão da história da igreja primitiva.

XI. A Vida Cristã no Século III: Simplicidade, Fé e Esperança

No século III, a igreja cristã era composta predominantemente por pessoas humildes: escravos, artesãos e trabalhadores braçais. Essa realidade contrastava com as acusações de críticos como Celso, que viam o cristianismo como uma religião de ignorantes. Apesar da falta de instrução formal da maioria dos cristãos, a fé era vivenciada com intensidade e simplicidade. A vida social da igreja girava em torno do culto comunitário e do apoio mútuo, especialmente às viúvas, que recebiam auxílio para manter sua independência e fidelidade à fé cristã .

O culto cristão primitivo centrava-se na comunhão (eucaristia), representando a centralidade da morte e ressurreição de Cristo na vida da comunidade . O culto iniciava com leituras bíblicas, orações e hinos, seguido pelo ósculo da paz e a oração eucarística sobre o pão e o vinho. A participação na comunhão era restrita aos batizados, destacando a importância do batismo como rito de iniciação na fé** . O batismo era precedido por um período de instrução denominado “catecumenato”, que durava cerca de três anos e culminava com a imersão do neófito na água, simbolizando sua nova vida em Cristo .

A organização da igreja no século III já apresentava uma hierarquia definida em três níveis: bispos, presbíteros e diáconos. Essa estrutura, que se fortaleceu como resposta às heresias e à necessidade de manter a unidade doutrinária, tinha no bispo a figura central como guardião da fé e sucessor dos apóstolos .

A arte cristã primitiva, encontrada em catacumbas, igrejas e sarcófagos, refletia a fé e a esperança daqueles cristãos. Cenas da comunhão, episódios bíblicos e símbolos como o peixe (representando Cristo) e a âncora (símbolo de esperança) expressavam a crença na salvação e na vida eterna . Em síntese, a vida cristã no século III era marcada pela fé simples, pela esperança em meio à perseguição e pela busca da unidade e da ortodoxia diante dos desafios doutrinários.

XII. A Grande Perseguição e o Triunfo Final: Da Escuridão à Vitória

No final do século III, a Igreja Cristã, que experimentava um período de relativa paz, viu-se diante da última e mais cruel perseguição perpetrada pelo Império Romano. O Imperador Diocleciano, buscando unificar e fortalecer o Império por meio da religião tradicional romana, considerava o Cristianismo, com sua recusa em adorar os deuses romanos e o imperador, uma ameaça à unidade e estabilidade do Império. Influenciado por Galério, seu César e um ferrenho opositor ao Cristianismo, Diocleciano promulgou uma série de editos a partir de 303 d.C. que desencadearam a Grande Perseguição.

A perseguição iniciou-se com a destruição de igrejas e a confiscação de Escrituras, visando minar a fé cristã. A recusa em entregar os livros sagrados e a crescente suspeita de conspiração por parte dos cristãos levaram à intensificação da perseguição, com a ordem de prisão de líderes cristãos e a exigência de sacrifícios aos deuses pagãos sob pena de tortura e morte. A perseguição se alastrou por todo o Império, com relatos de martírios cruéis e comoventes, como o dos três irmãos Vicente, Sabina e Cristeta em Ávila. A violência da perseguição visava não apenas punir os cristãos, mas também forçar sua apostasia, enfraquecendo a fé que desafiava a autoridade imperial.

Em meio a esse cenário turbulento, surge a figura de Constantino, filho de Constâncio Cloro, um dos Césares de Diocleciano. Após a morte de seu pai, Constantino ascendeu ao poder no Ocidente, buscando a unificação do Império. Em 312 d.C., Constantino marchou com seu exército contra Majêncio, que controlava Roma. Às vésperas da batalha decisiva na Ponte Mílvia, Constantino teve uma visão, interpretada por ele como um sinal divino, que o impulsionou a usar o símbolo cristão, o ‘Labarum’, em seus estandartes. A vitória de Constantino sobre Majêncio na Ponte Mílvia marcou um ponto de virada na história do Cristianismo.

Embora a conversão de Constantino ao Cristianismo ainda fosse um processo em curso, sua vitória o levou a promulgar, juntamente com Licínio, o “Edito de Milão” em 313 d.C., que concedia liberdade de culto aos cristãos e ordenava a restituição de suas propriedades confiscadas. O Edito de Milão, juntamente com a posterior ascensão de Constantino como único imperador, inaugurou uma nova era para a Igreja, marcando o fim da perseguição e o início de uma nova era de aceitação e crescimento do Cristianismo no Império Romano. No entanto, essa nova fase trouxe consigo novos desafios e dilemas, que moldariam o futuro da Igreja.

Fonte: Gonzáles, Justo. História Ilustrada do Cristianismo. Vol.1.

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