Agostinho de Hipona exerceu uma influência profunda e duradoura na filosofia cristã da história, especialmente através de sua obra seminal, “A Cidade de Deus”. Escrita no contexto da queda de Roma em 410 d.C., um evento traumático que muitos compararam ao 11 de setembro para o mundo antigo, a obra de Agostinho não apenas respondeu às acusações pagãs de que o cristianismo era responsável pela queda do império, mas também ofereceu um novo paradigma para entender o curso da história e o papel dos cristãos dentro dela. Por 1500 anos, “A Cidade de Deus” se tornou o alicerce de uma filosofia cristã da história.
Antes de Agostinho, prevaleciam diferentes visões sobre a história. A visão pagã dominante era cíclica, concebendo a história como uma grande roda girando sem começo nem fim. Essa ideia do eterno retorno era difundida na cultura de Agostinho e se manifestava em religiões orientais e na filosofia da época. Agostinho, contudo, encontrou essa visão irreconciliável com a fé bíblica. As primeiras palavras da Bíblia, “No princípio, criou Deus”, contradiziam a noção de um ciclo eterno. Agostinho refletiu profundamente sobre a narrativa da criação em Gênesis e chegou à percepção de que Deus criou o tempo e o espaço simultaneamente e interdependentemente, uma visão notável que antecipou a teoria da relatividade de Einstein. Para Agostinho, a história tinha um ponto de partida definitivo na criação, um ponto de inflexão decisivo na vida, morte e ressurreição de Jesus Cristo, e culminaria em uma consumação futura conhecida apenas por Deus.
Dentro da própria tradição cristã, Agostinho também rejeitou duas outras visões da história. Uma era a visão apocalíptica, que enfatizava o fim iminente do mundo e frequentemente envolvia especulações sobre o milênio futuro. Alguns contemporâneos de Agostinho interpretaram a queda de Roma sob essa lente, aplicando profecias do Apocalipse aos eventos de 410 d.C.. Agostinho, no entanto, argumentou que Roma ainda estava de pé, sugerindo que o fim talvez não fosse imediato.
A outra visão rejeitada por Agostinho era a visão progressiva da história, popular entre aqueles que, na tradição de Eusébio de Cesareia, procuravam equiparar a causa cristã com o Império Romano “convertido”. Poetas cristãos da época, como Prudêncio, chegaram a afirmar que, com a adoção da fé cristã, Roma estaria protegida de inimigos bárbaros. A invasão e o saque de Roma por Alarico em 410 d.C. representaram um choque brutal que desmentiu essas expectativas otimistas. Esse evento ajudou Agostinho a perceber o perigo de identificar a Cidade de Deus muito de perto com qualquer cidade terrena, incluindo Roma. Ele enfatizou que “a Cidade Celestial supera Roma, incomparavelmente” e que lá se encontram verdade, santidade, felicidade e eternidade em vez de meras vitórias, altos cargos, paz e vida terrena.
A compreensão da história forjada por Agostinho ensinava que os cristãos são aqueles que vivem no tempo, mas pertencem à eternidade. Ele enfatizou a importância de não equiparar qualquer entidade política terrena com o Reino de Deus. Agostinho argumentava que os cristãos possuem uma dupla cidadania: uma terrena e outra celestial. Inspirado no exemplo do apóstolo Paulo, que reconhecia sua cidadania celestial (Filipenses 3:20) mas também apelava a César como cidadão romano, Agostinho via os crentes como peregrinos e estrangeiros residentes em um mundo marcado pela descontinuidade e lealdades frequentemente contestadas.
Essa perspectiva levava a uma “virtude castigada”, uma postura de engajamento no mundo que reconhece que “este mundo não é meu lar, estou apenas de passagem”, mas que também implica trabalhar com todas as forças para amar o próximo e buscar justiça e paz na vida mortal comum. Agostinho alertava contra dois erros principais: o utopismo, a crença de que podemos criar uma sociedade perfeita que trará o Reino de Deus à Terra (erro fundamental do marxismo e do liberalismo do século XIX), e o cinismo, que surge ao observarmos o mal constante e nos leva a um isolamento egoísta.
Em contraste com a cidade terrena, marcada pela transitoriedade e sofrimento, Agostinho apresentava a “Cidade de Deus” como a comunidade eterna dos eleitos, unidos pelo amor a Deus e uns aos outros. Essa cidade está em peregrinação na Terra, sofrendo as provações do tempo, mas sua fundação reside no amor fiel de Deus e sua esperança está na eternidade. A resposta cristã ao terror e à instabilidade do mundo, portanto, não reside na busca por uma perfeição terrena, mas no amor ao inimigo e no perdão, refletindo a essência da Cidade de Deus vista na cruz de Jesus.
A filosofia da história de Agostinho, portanto, ofereceu uma estrutura teológica para entender os eventos do mundo à luz da fé cristã. Ela deslocou o foco da ascensão e queda de impérios terrenos para a jornada espiritual da Igreja através da história, rumo à sua consumação final no Reino eterno de Deus. Sua ênfase na soberania de Deus sobre a história, na distinção entre o Reino de Deus e os reinos terrenos, e na dupla cidadania dos cristãos moldou profundamente o pensamento cristão nos séculos seguintes e continua relevante para os crentes que buscam viver com esperança em um mundo instável.