As crenças teológicas de Martinho Lutero foram centrais para o desencadeamento e o desenvolvimento da Reforma Protestante, exercendo uma influência profunda e duradoura na vida da Europa do século XVI. Suas ideias não apenas desafiaram as doutrinas e práticas da Igreja Católica Romana, mas também remodelaram a religião, a política, a sociedade e a cultura do continente.
Um dos pilares da teologia de Lutero era a doutrina da justificação pela fé somente. Ele redescobriu a ênfase bíblica de que a salvação não é alcançada por meio de boas obras, rituais ou méritos humanos, mas unicamente pela graça de Deus recebida pela fé em Jesus Cristo. Essa crença fundamental minou a base do sistema de indulgências da Igreja Católica e desafiou a autoridade papal, que afirmava ter o poder de conceder remissão dos pecados. Ao enfatizar que o relacionamento de um indivíduo com Deus era direto e baseado na fé, Lutero libertou os crentes da dependência da mediação sacerdotal para a salvação.
Intimamente ligada à justificação pela fé estava a doutrina da Sola Scriptura, que afirmava que a Bíblia era a única autoridade infalível para a fé e a prática cristã. Lutero argumentava que as tradições da igreja, os decretos papais e os concílios ecumênicos eram falíveis e deveriam ser julgados à luz das Escrituras. Sua tradução da Bíblia para o alemão vernáculo em 1534 tornou as Escrituras acessíveis ao povo comum, capacitando os indivíduos a ler e interpretar a Bíblia por si mesmos. Isso diminuiu a dependência do clero para o conhecimento religioso e promoveu um maior senso de responsabilidade pessoal na fé. Lutero acreditava que ninguém poderia entender completamente as Escrituras sem ter governado as igrejas com os profetas e apóstolos por cem anos, reconhecendo a profundidade e a exigência da compreensão bíblica. Ele considerava sua tradução alemã da Bíblia mais influente no idioma alemão do que a Versão King James no inglês.
A ênfase de Lutero na Sola Scriptura levou a uma reavaliação de muitas práticas e doutrinas católicas. Ele rejeitou sacramentos que não eram claramente instituídos nas Escrituras, como a confirmação, a penitência, a ordem e o matrimônio (embora mais tarde ele tenha elevado o matrimônio). Ele manteve apenas o batismo e a Santa Ceia, embora com uma compreensão diferente desta última, defendendo a presença real de Cristo “em, com e sob” o pão e o vinho. Essa visão o colocou em conflito com outros reformadores, como Zwingli, que tinha uma visão mais simbólica da Ceia.
A teologia de Lutero também moldou uma nova compreensão da igreja e do culto. Ele rejeitou a distinção católica entre clero e leigos, defendendo um sacerdócio de todos os crentes. Isso não significava que todos deveriam exercer as funções de um pastor, mas que todos os cristãos tinham acesso direto a Deus por meio de Cristo e compartilhavam a responsabilidade de edificar o corpo de Cristo. Lutero tornou o canto congregacional uma parte central do culto protestante, substituindo o coro e atribuindo todo o canto à congregação. Ele frequentemente convocava ensaios congregacionais durante a semana para que as pessoas pudessem aprender novos hinos. Ele mesmo escreveu numerosos hinos, muitos dos quais ainda são cantados hoje, reconhecendo que, depois da Palavra de Deus, a música merece o maior louvor.
A pregação da Palavra de Deus tornou-se fundamental no culto reformado. Lutero foi considerado “um dos maiores pregadores de todos os tempos”. Ele pregava frequentemente, às vezes várias vezes por semana, expondo as Escrituras e aplicando-as à vida dos seus ouvintes. Apesar disso, ele por vezes se desanimou com sua congregação, sentindo que seu povo permanecia ímpio. Lutero também deu grande importância à educação religiosa, publicando o Catecismo Menor e o Catecismo Maior em 1529 para ensinar os fundamentos da fé cristã a uma população assustadoramente ignorante. Ele enfatizou a importância de temer, amar e confiar em Deus acima de todas as coisas.
As crenças de Lutero tiveram um impacto significativo na vida familiar e social. Ele elevou o matrimônio e a vida familiar, em contraste com o ideal medieval do celibato. Ele próprio casou-se com Catarina von Bora, uma ex-freira, e juntos estabeleceram um modelo para o lar pastoral protestante. Lutero considerava o casamento como uma instituição necessária e natural, comparando-o à união que permeia toda a natureza. Ele tinha grande consideração pela capacidade das mulheres de moldar a sociedade e educar os jovens. Sua visão sobre o sexo dentro do casamento também era mais positiva do que a tradição ascética anterior. Embora ele fizesse comentários jocosos sobre as mulheres, também criticava as visões depreciativas sobre elas. Lutero e Catarina receberam e hospedaram centenas de pessoas ao longo dos anos, demonstrando caridade e hospitalidade.
No âmbito político, a teologia de Lutero teve consequências revolucionárias. Sua doutrina da Sola Scriptura desafiou não apenas a autoridade religiosa do papa, mas também a autoridade secular baseada em decretos papais. Ele argumentou que os governantes seculares eram ordenados por Deus e deveriam ser obedecidos, mas também os responsabilizava por governar de acordo com a justiça e a lei divina. A Reforma levou à formação de estados protestantes que não estavam mais sob o controle da Igreja Católica Romana, resultando em conflitos religiosos e guerras na Europa. A Liga de Schmalkalden, uma aliança de príncipes protestantes, foi formada em 1531 para defender os estados protestantes contra um possível ataque católico romano.
As ideias de Lutero também geraram controvérsia e divisão dentro do próprio movimento reformador. Suas disputas com outros reformadores, como Karlstadt, Zwingli e os anabatistas, sobre questões como a natureza da Santa Ceia e o batismo infantil, levaram a cisões significativas no protestantismo. Lutero acreditava que a doutrina correta era essencial para a unidade e a harmonia entre os reformadores. Sua recusa em comprometer o que ele considerava a verdade bíblica levou a debates acirrados e a uma falta de unidade entre os primeiros protestantes.
Os últimos anos de Lutero foram marcados por controvérsias, incluindo seus escritos amargos contra os judeus. Esses escritos têm sido uma fonte de embaraço e crítica para muitos admiradores de Lutero, com alguns argumentando que eles contribuíram para o antissemitismo posterior. No entanto, alguns estudiosos argumentam que as objeções de Lutero eram teológicas e não raciais, dentro do contexto de sua época.
Apesar das controvérsias, o legado teológico de Lutero moldou profundamente a Reforma Protestante e a vida na Europa do século XVI. Suas ênfases na justificação pela fé, na autoridade das Escrituras e no sacerdócio de todos os crentes revolucionaram a prática religiosa e capacitaram os indivíduos em sua fé. Suas ideias tiveram consequências de longo alcance para a política, a sociedade, a educação e a cultura europeias, estabelecendo as bases para o desenvolvimento do protestantismo e influenciando o curso da história ocidental. A tradução da Bíblia para o vernáculo, a importância dada à pregação e ao ensino, e a introdução do canto congregacional são apenas alguns exemplos do impacto duradouro de suas crenças teológicas. Mesmo em seus momentos de doença e depressão, Lutero continuou a produzir uma quantidade incrível de escritos, palestras e sermões, demonstrando sua dedicação à proclamação do evangelho da graça.