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João Crisóstomo, conhecido como “boca de ouro” devido à sua eloquência como pregador, dirigiu críticas contundentes à riqueza presente na igreja de sua época, vivendo no século IV e início do século V. Suas críticas não eram apenas teóricas, baseando-se em sua profunda compreensão das Escrituras, mas também se manifestavam em ações práticas e em sua postura desafiadora diante da opulência e da negligência dos pobres dentro da comunidade cristã.

Crisóstomo vivenciou a significativa disparidade econômica da cidade de Antioquia, onde se estimava que apenas um décimo da população era rica, enquanto outro décimo vivia na pobreza extrema, com o restante situado entre esses dois extremos. Essa realidade social inflamava suas pregações, nas quais frequentemente denunciava a mundanidade e a falta de atenção dispensada aos necessitados pelos membros mais abastados da igreja.

Um dos pontos centrais da crítica de Crisóstomo era a ideia de que o amor pelas riquezas era “anormal” e que a acumulação de bens para fins egoístas era, em essência, um roubo aos pobres. Ele argumentava que era praticamente impossível enriquecer sem que houvesse alguma injustiça subjacente, afirmando que “a raiz e a origem das riquezas devem ter sido a injustiça”. Essa perspectiva radical desafiava a complacência dos ricos que alegavam não ter pecado diretamente, questionando se eles não estavam se beneficiando de crimes e roubos passados cometidos por outros.

Para Crisóstomo, a visão de uma sociedade justa estava intrinsecamente ligada à igualdade entre todos, fundamentada no fato de que todos os seres humanos são criados à imagem de Deus. Ele defendia que a propriedade privada não deveria existir de forma absoluta, pois tudo pertencia a Deus e era dado para o uso comum de todos. Os bens materiais não eram intrinsecamente maus, mas a injustiça surgia quando alguns os utilizavam para lucro pessoal enquanto outros passavam fome.

Crisóstomo apontava para o livro de Atos dos Apóstolos como um modelo de verdadeira comunidade cristã, onde os primeiros crentes colocavam seus bens em comum, experimentando alegria e ausência de inveja, orgulho ou desprezo, e onde a noção de “meu” e “teu” era praticamente inexistente. Ele via nessa partilha um aumento da piedade e um reflexo do espírito do Evangelho.

A preocupação de Crisóstomo com os pobres estava inseparavelmente ligada à sua visão de culto. Ele acreditava que a presença do corpo de Cristo na Eucaristia, o centro da adoração da igreja, era vital. No entanto, ele argumentava que Cristo não estava corporificado apenas no sacramento, mas também, de maneira especial, nos pobres e nos que sofrem, que refletiam a humildade de sua encarnação. Ao se tornar humano, Deus assumiu todas as condições da nossa natureza caída, exceto o pecado, e os pobres, em sua vulnerabilidade, espelhavam essa identificação de Cristo com a humanidade sofredora.

Portanto, para Crisóstomo, a indiferença em relação aos pobres revelava uma pobreza espiritual e um culto deficiente. Ele confrontava aqueles que honravam o altar da igreja por causa do corpo de Cristo que ali repousava, mas desprezavam aqueles que eram o próprio corpo de Cristo em suas necessidades, permanecendo indiferentes ao vê-los perecer. Ele ensinava que ninguém poderia crescer em piedade sem servir seus irmãos e irmãs necessitados. Para ele, os verdadeiros altares não eram apenas os da igreja, mas os corpos físicos dos homens e mulheres reais em necessidade.

A crítica de Crisóstomo à riqueza na igreja se manifestou de forma prática quando ele se tornou bispo de Constantinopla. Apesar da pompa e do luxo que acompanhavam o cargo, seu espírito monástico o levou a reformar a igreja. Ele criticava as decorações ornamentadas da Igreja da Santa Sabedoria e, em uma ocasião notável, vendeu os cálices de ouro para distribuir os recursos aos pobres. Sua declaração ressoava com sua profunda convicção: “Vocês fazem vasos de ouro, mas o próprio Cristo está faminto. Vocês fazem cálices de ouro, mas falham em oferecer um copo de água fria aos necessitados. Cristo, como um estrangeiro sem lar, está vagando e mendigando, e em vez de recebê-Lo, vocês fazem decorações”. Essa ação simbólica demonstrava sua prioridade em atender às necessidades básicas dos mais vulneráveis em vez de se concentrar na ostentação material dentro da igreja.

A visão de Crisóstomo sobre a filantropia cristã estava enraizada na adoração da igreja, na encarnação de Cristo e no mandamento bíblico de amar o próximo. Ele acreditava que ao amarmos e servirmos uns aos outros, especialmente os pobres, crescemos na imagem e semelhança de Cristo. Sua crítica à riqueza na igreja, portanto, não era uma mera condenação da posse de bens, mas um chamado urgente à responsabilidade social e à manifestação prática do amor cristão, refletindo a prioridade de Deus pelos mais necessitados, conforme demonstrado na vida e nos ensinamentos de Jesus Cristo. Ele via a igreja como o principal agente de mudança social, acreditando que somente o Evangelho poderia alcançar o coração da questão e promover a transformação tanto do indivíduo quanto da sociedade. Sua teologia da riqueza e da pobreza desafiava a igreja a viver de acordo com os princípios do Reino de Deus, onde a justiça, a igualdade e o amor ao próximo deveriam prevalecer sobre a acumulação egoísta e a indiferença diante do sofrimento.

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