João Crisóstomo, o “Boca de Ouro” da Igreja Primitiva

João Crisóstomo, o “Boca de Ouro” da Igreja Primitiva

São João Crisóstomo foi um dos pregadores mais eloquentes e influentes da Igreja Cristã primitiva. Nascido em Antioquia, Crisóstomo foi eleito Patriarca de Constantinopla em 398 d.C., embora tenha sido nomeado para o cargo contra sua vontade. Sua pregação eloquente e intransigente era tão extraordinária que, 150 anos após sua morte, ele recebeu o sobrenome Crisóstomo, significando “a boca de ouro” ou “a língua de ouro”.

Fatos Rápidos: João Crisóstomo

  • Também Conhecido Como: João de Antioquia
  • Conhecido Por: Doutor da Igreja, Arcebispo de Constantinopla no século IV, famoso por seus numerosos e eloquentes sermões e cartas
  • Pais: Secundus e Anthusa de Antioquia
  • Nascimento: 347 d.C. em Antioquia, Síria
  • Morte: 14 de setembro de 407, em Comana, nordeste da Turquia
  • Citação Notável: “A pregação me aprimora. Quando começo a falar, o cansaço desaparece; quando começo a ensinar, a fadiga também desaparece.”

Primeiros Anos

João de Antioquia (o nome pelo qual era conhecido entre seus contemporâneos) nasceu por volta de 347 d.C. em Antioquia, cidade onde os seguidores de Jesus Cristo foram chamados pela primeira vez de cristãos (Atos 11:26). Seu pai, Secundus, era um distinto oficial militar no exército imperial da Síria, falecendo quando João era ainda um bebê. Sua mãe, Anthusa, era uma mulher cristã devota, tendo apenas 20 anos quando ficou viúva.

Em Antioquia, capital da Síria e um dos principais centros educacionais da época, Crisóstomo estudou retórica, literatura e direito sob a tutela do professor pagão Libanius. Começou sua carreira como advogado, mas logo abandonou a prática jurídica para se dedicar ao ministério cristão. Foi batizado na fé cristã aos 23 anos e passou por uma renúncia radical ao mundo em dedicação a Cristo.

João Crisóstomo, Arcebispo de Constantinopla, Turquia.

Crisóstomo, o Monge

Inicialmente, Crisóstomo se interessou pela vida monástica. Ele acreditava que o monasticismo era o caminho mais elevado de piedade. Em 374 d.C., ele entrou para um mosteiro em Antioquia. Nos dois primeiros anos de sua vida monástica, Crisóstomo viveu em uma caverna. Ele passava dias e noites em oração e meditação. Ele também dormia pouco e se alimentava de forma frugal.

Essa extrema mortificação física teve um impacto negativo na saúde de Crisóstomo. Ele ficou fraco e doente. Ele também começou a questionar se a vida monástica era realmente o caminho certo para ele. Em 380 d.C., Crisóstomo deixou o mosteiro e retornou a Antioquia. Neste tempo, Ele começou a estudar teologia e se preparar para o ministério pastoral.

Ao retornar do mosteiro, Crisóstomo tornou-se ativo na igreja de Antioquia, servindo sob Meleto, bispo de Antioquia, e Diodoro, líder de uma escola catequética na cidade. Em 381 d.C., Crisóstomo foi ordenado diácono por Meleto e, cinco anos depois, foi ordenado sacerdote por Flaviano. Imediatamente, sua eloquência e caráter sincero conquistaram a admiração e o respeito de toda a igreja em Antioquia.

Os sermões claros, práticos e poderosos de Crisóstomo atraíram grandes multidões e tiveram um impacto significativo nas comunidades religiosas e políticas de Antioquia. Sua entusiasmo e clareza de comunicação atraíram as pessoas comuns, que frequentemente se espremiam na frente da igreja para ouvi-lo melhor. No entanto, seu ensino confrontador frequentemente o colocava em apuros com os líderes eclesiásticos e políticos de sua época.

Um tema recorrente nos sermões de Crisóstomo destacava a imperativa responsabilidade cristã de prover cuidado aos necessitados. Em um trecho emblemático de seu Sermão 74, intitulado “Sobre o Pobre Lázaro” e pregado em Antioquia, na Síria, por volta de 390 d.C., Crisóstomo denuncia, com veemência, a insanidade pública de encher armários com roupas luxuosas enquanto aqueles criados à imagem de Deus permanecem despidos e trêmulos de frio, mal conseguindo se sustentar. Ele desmascara a loucura que permite que os ricos se deleitem com banquetes suntuosos, enquanto os pobres enfrentam a fome como uma cruel realidade. Com uma eloquência afiada, Crisóstomo expõe a insensatez de erguer mansões opulentas para os ricos, contrastando com a miséria em que os pobres são obrigados a viver.

Patriarca de Constantinopla:

Em um dia memorável, em 26 de fevereiro de 398, João Crisóstomo foi catapultado contra suas próprias objeções para o papel de Arcebispo de Constantinopla. Sob a ordem de Eutrópio, um funcionário do governo, Crisóstomo foi levado à força militar para a grandiosa Constantinopla, onde, mesmo relutante, foi consagrado arcebispo. Eutrópio acreditava que a igreja da capital merecia o melhor orador, e Crisóstomo, sem buscar a posição patriarcal, a aceitou como a vontade divina de Deus.

Assumindo o ministério de uma das maiores igrejas do Cristianismo, Crisóstomo se destacou não apenas como um notável pregador, mas também como uma figura controversa. Suas críticas aos ricos e sua incessante defesa dos pobres o tornaram famoso, mas ao mesmo tempo, colocaram-no em conflito com os poderosos. Suas palavras, afiadas como espadas, denunciavam os abusos de autoridade, ferindo os ouvidos dos ricos e poderosos. No entanto, mais impactante do que suas palavras era seu estilo de vida austero, utilizando sua substancial mesada doméstica para ministrar aos necessitados e construir hospitais.

Em breve, Crisóstomo caiu em desgraça na corte de Constantinopla, especialmente com a imperatriz Eudóxia, que se sentiu pessoalmente ofendida por suas repreensões morais. Determinada a silenciar Crisóstomo, ela decidiu bani-lo. Assim, apenas seis anos após sua nomeação como arcebispo, em 20 de junho de 404, João Crisóstomo foi escoltado para longe de Constantinopla, nunca mais retornando. O restante de seus dias foi vivido no exílio.

São João Crisóstomo confrontando a Imperatriz Eudóxia

Fé em Ação na Busca da Justiça Social

O que a vida e o ministério de Crisóstomo nos ensinam é um poderoso chamado à ação. Ele não apenas pregava sobre justiça social, mas agia incansavelmente para promover a mudança. Seu exemplo ressoa nos corações daqueles que buscam uma fé que transcende as palavras, uma fé que se manifesta em ações concretas.

A história de Crisóstomo é uma lembrança urgente de que a fé autêntica não se limita a discursos eloquentes, mas se traduz em viver uma vida de compaixão e serviço. Assim como Crisóstomo desafiou as injustiças de sua época, somos chamados a olhar além das palavras vazias e a seguir seu exemplo, trabalhando ativamente para criar um mundo mais justo e compassivo. Que sua vida e ministério nos inspirem a não apenas falar sobre a fé, mas a demonstrá-la através de ações transformadoras.

Legado de João Crisóstomo

A contribuição mais significativa de João Crisóstomo para a história cristã foi transmitir mais palavras do que qualquer outro pai da igreja primitiva que falava grego. Ele fez isso por meio de seus numerosos comentários bíblicos, homilias, cartas e sermões. Mais de 800 deles estão disponíveis até hoje.

Crisóstomo foi, de longe, o pregador cristão mais articulado e influente de sua época. Com um dom extraordinário para explicação e aplicação pessoal, suas obras incluem algumas das melhores exposições sobre os livros da Bíblia, especialmente Gênesis, Salmos, Isaías, Mateus, João, Atos e as epístolas de Paulo. Suas obras exegéticas sobre o Livro de Atos são o único comentário sobrevivente sobre o livro nos primeiros mil anos do Cristianismo.

Além de seus sermões, outras obras duradouras incluem um discurso inicial, Contra Aqueles que se Opõem à Vida Monástica, escrito para pais cujos filhos consideravam uma vocação monástica. Ele também escreveu Instruções aos Catecúmenos, Sobre a Incompreensibilidade da Natureza Divina e Sobre o Sacerdócio, nos quais dedicou dois capítulos à arte da pregação.

João de Antioquia recebeu o título póstumo de “Crisóstomo” ou “boca de ouro”, 15 décadas após sua morte. Para a Igreja Católica Romana, João Crisóstomo é considerado um “Doutor da Igreja”. Em 1908, o Papa Pio X o designou como padroeiro dos oradores, pregadores e palestrantes cristãos. As igrejas Ortodoxa Oriental, Copta e Anglicana também o consideram um santo.

Em Prolegômenos: A Vida e Obra de São João Crisóstomo, o historiador Philip Schaff descreve Crisóstomo como “um daqueles raros homens que combinam grandeza e bondade, genialidade e piedade, e continuam a exercer, por meio de seus escritos e exemplo, uma influência feliz sobre a igreja cristã. Ele foi um homem para seu tempo e para todos os tempos. Mas devemos observar o espírito mais do que a forma de sua piedade, que trazia a marca de sua era.”

Morte no Exílio: O Legado Inabalável de João Crisóstomo

A história de João Crisóstomo, conhecido como “boca de ouro”, culminou em um período de exílio cruel que testou não apenas sua resistência física, mas também a profundidade de sua fé inabalável em Cristo. Durante três anos penosos, Crisóstomo enfrentou a dura realidade do exílio sob guarda armada na remota cidade de Cucusus, aninhada nas impiedosas montanhas da Armênia.

Mesmo com sua saúde deteriorando-se rapidamente, Crisóstomo manteve-se firme em sua devoção, transformando seu sofrimento em uma expressão vívida de sua fé. Longe de seu púlpito usual, suas palavras agora encontravam eco nas cartas de encorajamento escritas a amigos e nas visitas de seguidores leais que, apesar das adversidades, permaneciam ao lado de seu mentor espiritual.

A transferência forçada para uma vila remota na costa leste do Mar Negro marcou um novo capítulo desafiador na vida do “Doutor da Igreja”. Nesse contexto desolador, João Crisóstomo desmaiou, uma manifestação visível da extensão de seu sofrimento físico. Contudo, em um gesto de profunda devoção, foi levado a uma pequena capela para receber a Eucaristia, o sacramento que simboliza a comunhão com Cristo e fortalece a alma para além das limitações do corpo.

Foi ali, na presença do divino, que João Crisóstomo pronunciou suas últimas palavras: “Glorificado seja Deus por todas as coisas!” Em 14 de setembro de 407, a “boca de ouro” silenciou fisicamente, mas seu legado espiritual ecoou através dos séculos.

A morte de João Crisóstomo no exílio não foi o fim, mas sim o início de uma nova fase de influência. Sua fé inabalável, expressa até o último suspiro, continuou a inspirar gerações, transcendendo as barreiras do tempo e espaço.

Patriarca Ecumênico Bartolomeu I senta-se perto dos restos mortais de Crisóstomos durante a cerimônia na Igreja de São Jorge, Fener, Patriarcado Ortodoxo Grego de Constantinopla, em Istambul, Turquia, em 27 de novembro de 2004

Repatriação de suas relíquias

No ano de 2004, o líder espiritual dos cristãos ortodoxos, esteve na capital da Itália para uma cerimônia no Vaticano, na qual recebeu de João Paulo II as relíquias de dois santos, Gregório de Nazianzo e João Crisóstomo, que foram levadas para Roma há séculos.

O Patriarca Ortodoxo Ecumênico Bartolomeu I, em sua declaração inspiradora durante a cerimônia, expressou o papel contínuo de Crisóstomo como um pai da igreja:

“Hoje, na cerimônia realizada na Igreja de São Jorge, Fener, testemunhamos a continuação desse legado, onde a presença de suas relíquias mantém viva a memória e a influência duradoura deste notável pai da igreja. Que a ‘boca de ouro’ continue a ressoar através das eras, inspirando a devoção e a busca pela verdade espiritual.”

O retorno de Crisóstomo a Constantinopla, agora como uma figura ecumênica, convida-nos a lembrar que, apesar das diferenças teológicas e históricas, somos todos parte da mesma família de fé. Sua “boca de ouro” ressoa não apenas nas paredes da Igreja de São Jorge, mas em nossos corações, desafiando-nos a buscar a verdade espiritual, independentemente de nossas tradições particulares. Que a “boca de ouro” continue a ressoar como um chamado à união, ao cuidado e ao amor cristão em tempos tão cruciais.

Conclusão:

Honrar a memória de João Crisóstomo não é apenas celebrar o passado, mas também inspirar um futuro de compreensão e respeito mútuo. Que o seu legado continue a transcender fronteiras, encorajando e iluminando caminhos espirituais em todas as partes do mundo.


Eu sou o Diego Gonçalves, teólogo e evangelista, e este é o meu blog www.diegon.org – “O Diário de um Jondô”. Aqui, reflexões teológicas diárias te esperam!

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Diego Souza

Sou ministro na Igreja Holiness e amo escrever. Graduando em Letras pela UNIVESP, com Bacharel em Teologia pela UMESP e com pós em Novo Testamento pela EST, neste blog compartilho meus pensamentos sobre a vida cristã e o cotidiano, buscando conectar a fé com o dia a dia.