As principais visões sobre a obra de Cristo (expiação) no período patrístico apresentaram uma variedade de perspectivas, com diferentes ênfases e desenvolvimentos ao longo dos séculos.
Os Pais Apostólicos:
Os Pais Apostólicos aludiam à obra de Cristo principalmente em termos bíblicos. Uma afirmação significativa encontrada na Epístola a Diogneto aborda as ideias de pecado humano merecedor de punição, de Deus entregando Seu Filho como resgate pelo pecado e da consequente cobertura do pecado pela justiça de Cristo. Em alguns momentos, a grande significação de Cristo era vista no fato de que, por Sua paixão e morte, Ele libertou a humanidade do pecado e da morte. Em outros, enfatizava-se que Ele revelou o Pai e ensinou a nova lei moral. Em certos casos, a morte de Cristo era apresentada como algo que ganhou para os homens a graça do arrependimento e abriu o caminho para uma nova obediência, e não tanto como a base da justificação do homem. Essa ênfase moralista é apontada como uma possível fragilidade dos ensinamentos dos Pais Apostólicos, relacionada ao moralismo do mundo pagão da época e tendendo a servir aos interesses do legalismo. As ordenanças eram expostas como meios pelos quais as bênçãos da salvação eram comunicadas.
Os Apologetas:
Os apologetas escreveram pouco de substancial sobre a expiação. Quando Cristo era apresentado como Redentor, geralmente aparecia como aquele que redime do poder de Satanás. Sua ênfase tendia a recair sobre Cristo como o Logos e Seus ensinamentos, em detrimento de Sua morte como ato redentor. Eles também enfatizavam que Cristo Se tornou o mestre da raça, trazendo a nova lei que requeria vida virtuosa. Os sofrimentos de Cristo quase não figuravam como necessários, exceto como cumprimento da profecia do Antigo Testamento, embora insistissem em sua realidade e significação para obter o perdão dos pecados e o livramento do pecado e do diabo.
Seitas e Hereges:
Nos sistemas gnósticos, a redenção efetuada por Cristo era vista como um livramento do reino das trevas, do mundo material. Para Márcion, a morte de Cristo era o preço pelo qual o Deus amoroso comprou os homens do criador do mundo (o Demiurgo). Ele via o Cristo do Novo Testamento como revelador do Deus bom, em contraste com o Deus justo e criador do Antigo Testamento.
A Escola Alexandrina (Clemente e Orígenes):
Na escola alexandrina, havia várias exposições sobre a obra de Cristo. Clemente de Alexandria, em algumas de suas obras, apresentava a morte de Cristo como pagamento da dívida humana e como resgate. No entanto, em suas obras mais importantes, ele dava maior destaque à ideia de Cristo como um Mestre que salva os homens ao lhes dar verdadeiro conhecimento e inspirá-los a uma vida de amor e autêntica retidão.
Orígenes expunha diversos pontos de vista sem necessariamente combiná-los em um sistema coerente. Ele via Cristo salvando ao deificar a natureza humana através da encarnação, oferecendo o supremo exemplo de autossacrifício para inspirar outros, dando Sua vida como sacrifício expiatório pelo pecado e redimindo os homens do poder de Satanás. Em relação à redenção do poder do diabo, Orígenes introduziu a ideia de que Satanás foi enganado nessa transação. Cristo Se ofereceu como resgate a Satanás, que aceitou sem perceber que não poderia manter domínio sobre Cristo devido ao Seu poder divino e santidade.
Atanásio:
O primeiro tratado sistemático sobre a obra da expiação foi o de Atanásio, “De Incarnatione”. Essa obra continha diversas ideias: o Logos teria se encarnado para restaurar ao homem o verdadeiro conhecimento de Deus, perdido por causa do pecado. O Logos encarnado também era retratado como substituto do homem, pagando sua dívida ao sofrer a pena imposta ao pecado. A necessidade dessa satisfação se baseava na veracidade de Deus, mais do que em Sua justiça. Atanásio não mencionava que o preço foi pago a Satanás. Ele também enfatizava a ideia de Irineu de que o Logos tomou carne para deificá-la e imortalizá-la. A exposição de Atanásio se diferenciava da de Irineu por vincular a encarnação mais diretamente à morte e ressurreição de Cristo no processo salvífico e por enfatizar o aspecto ético, com Cristo operando por meio de Sua Palavra e exemplo nos corações dos homens.
A Teologia Patrística Grega:
A teologia patrística grega, culminando em João Damasceno, compendiou os pensamentos anteriores sobre a obra de Cristo, embora sem adicionar contribuições distintivas. A doutrina da obra de Cristo era vista sob dois aspectos fundamentais: (a) a salvação como resultado direto da encarnação, uma nova revelação divina ou comunicação de nova vida (juntamente com a morte e ressurreição de Cristo); (b) a salvação como cumprimento de condições objetivas, como um sacrifício a Deus, satisfação à justiça divina ou resgate pago ao diabo. Teorias características desse período incluem a “grande doutrina exotérica da expiação na Igreja grega” (resgate pago ao diabo) e a “teoria esotérica do recapitulatio”.
A Teologia Patrística Latina (Tertuliano e Agostinho):
Embora compartilhasse pontos em comum com a teologia grega, a teologia patrística latina desenvolveu algumas diferenças importantes, começando com Tertuliano. Ele adotou a teoria da recapitulação de Irineu, mas concebia a encarnação afetando a humanidade principalmente através de preceito e exemplo. No entanto, ele dava muito mais ênfase do que Irineu à significação central da morte de Cristo na cruz, considerando-a o ponto culminante e o real propósito da missão de Cristo.
Agostinho apresentou uma variedade de pontos de vista, resumindo o desenvolvimento anterior. A ideia da deificação da natureza humana através da encarnação aparece em sua obra, embora de forma ética. A noção de que Satanás tinha direitos sobre o homem também figura, mas complementada pela ideia de que essa reivindicação foi anulada pela morte de Cristo. A principal linha de pensamento de Agostinho se distanciava da teologia grega, com foco no pecado original, na justificação pela graça e na reconciliação através do sacrifício de Cristo, marcando o surgimento do pensamento ocidental e aproximando-se das ideias paulinas. O sacrifício de Cristo começou a ser visto como algo que apazigua a ira de Deus.
Gregório Magno:
As discussões teológicas entre Gregório Magno e Anselmo não contribuíram significativamente para o desenvolvimento da doutrina da expiação.
Em resumo, o período patrístico testemunhou um desenvolvimento gradual e multifacetado da doutrina da expiação, partindo de formulações simples e bíblicas nos Pais Apostólicos, passando por interações com filosofias e heresias (gnosticismo, marcionismo), chegando a elaborações mais sistemáticas nos Padres Anti-Gnósticos e na escola Alexandrina, culminando nas perspectivas distintas da teologia grega e latina, com figuras como Atanásio, Tertuliano e Agostinho lançando as bases para desenvolvimentos posteriores. A ideia do resgate pago a Satanás e a noção de deificação através da encarnação foram temas recorrentes, enquanto a satisfação à justiça divina começou a ganhar destaque, especialmente no pensamento ocidental.