Mt 5:7 – Alcançando Misericórdia

Mt 5:7 – Alcançando Misericórdia

Este sermão em Mateus 5:7 fala sobre alcançar misericórdia. Jesus ensina que aqueles que são misericordiosos receberão misericórdia em troca. Ele também ensina que a misericórdia é um dos atributos de Deus e que devemos imitá-lo em nossas vidas.

Escrito por Diego Gonçalves para o MEP da Igreja DaeHan - Março de 2021

Palavra:

“Bem-aventurados os misericordiosos, porque alcançarão misericórdia”.

Mateus 5:7, ARA

INTRODUÇÃO

Antes de adentrarmos na reflexão sobre a bem-aventurança dos misericordiosos, é essencial compreender o contexto histórico em que Jesus proferiu essas palavras. Nos dias de Jesus, a liderança religiosa caracterizava-se pela implacabilidade e falta de misericórdia, devido à sua estrita observância da lei. O livro de Mateus, no capítulo 23, registra sete críticas contundentes direcionadas a esses líderes religiosos corruptos. Entre essas críticas, destacam-se duas: 1) eles ensinavam sobre Deus, mas não O amavam, não adentravam no Reino de Deus e ainda impediam que outros adentrassem (Mateus 23:13-14); e 2) eles ensinavam a Lei, mas não praticavam aspectos cruciais como humildade, quebrantamento, mansidão, justiça, misericórdia e fé em Deus.

Essas críticas aos maus religiosos são resultantes da violação e negligência aos dois principais mandamentos: amar a Deus e amar o próximo. Os líderes religiosos falhavam exatamente ao cumprir esses mandamentos. Estavam tão focados no que era visível, nos rituais, no protocolo e na religião exterior que os fazia parecer justos e virtuosos externamente, que não se preocupavam com o que estava dentro. Exteriormente, apresentavam-se belos e impecáveis, mas internamente eram como sepulcros caiados. Esse comportamento impediu que recebessem a misericórdia de Deus, pois estavam tão satisfeitos com suas próprias realizações religiosas que não reconheciam sua completa falência espiritual e sua desesperada necessidade da abundante misericórdia divina.

No entanto, em contrapartida, ser misericordioso significa sentir profundamente a dor do outro, a ponto de tomar atitudes para aliviar essa dor. Os fariseus eram incapazes disso. Ser misericordioso é ser repleto de misericórdia. Misericórdia não se limita a sentir compaixão, mas envolve agir para amenizar a angústia, o sofrimento e a miséria daqueles que necessitam de auxílio.

Nesta mensagem, iremos explorar o exemplo perfeito de misericórdia em Jesus Cristo e como Ele nos ensina a manifestar a misericórdia em nossas vidas. Veremos como a misericórdia é um reflexo do caráter de Deus e como podemos nos tornar verdadeiros agentes de compaixão na comunidade da fé. Além disso, refletiremos sobre a relação entre receber misericórdia e demonstrar misericórdia aos outros, entendendo que a prática da misericórdia resulta em um ciclo de bênçãos e graça.

O amor em ação

Jesus é o modelo perfeito de alguém misericordioso. Em Mateus 14:14, lemos que “quando Ele viu uma grande multidão, teve compaixão deles e curou seus enfermos”. Observe que Jesus percebeu a necessidade da multidão e, em seguida, agiu. Isso nos ensina que a misericórdia motiva os misericordiosos a agir. O misericordioso é alguém cheio de amor e que ama com o amor de Deus. Ele tem compaixão e age porque está cheio de Deus, transbordando das fontes da misericórdia.

O misericordioso é aquele em cuja vida a cruz operou uma transformação para torná-lo semelhante a Jesus Cristo. A misericórdia não era uma característica natural do discípulo, mas, devido à Cruz de Cristo, tornou-se o seu caráter e padrão de vida. A misericórdia na vida do bem-aventurado começa com o simples reconhecimento de que alguém ao seu redor está sofrendo. No entanto, ver ou sentir não é suficiente, a misericórd

ia precisa se transformar em ação. É a compaixão ativa por aqueles que precisam.

Um grande comentarista bíblico chamado William Barclay define a palavra hebraica para “misericordioso” como “ter a capacidade de entrar diretamente na pele da outra pessoa, ver as coisas com seus olhos, pensar como ela e sentir as coisas com seus sentimentos”. Em resumo, a misericórdia é amor em ação. Ela nos lembra constantemente que vivemos sob a misericórdia de Deus e que precisamos dela todos os dias.

Precisamos de misericórdia

Precisamos de misericórdia porque somos pobres de espírito, choramos por nossos pecados e lamentamos nossa falência espiritual. Precisamos de misericórdia porque nem sempre somos mansos quando precisamos perdoar aqueles que nos machucaram. Precisamos de misericórdia porque temos fome e sede de justiça, mas nossa própria justiça é apenas um trapo imundo. Precisamos de misericórdia porque precisamos fixar nosso olhar em Cristo Jesus, pois somente Ele pode saciar nossa fome e sede de Justiça. Ter fome e sede de Justiça é ter fome e sede de Cristo, porque somente Ele é a nossa justiça. Ele é Javé Tsedekenu, o sol da justiça que brilha sobre nós, e o brilho de Sua retidão resplandece em nossos corações, iluminando e banhando o pecador na luz de Sua misericórdia. E uma vez transformados pela misericórdia, nos tornamos Misericordiosos como Deus é misericordioso!

Embora não mereçamos essa misericórdia, Deus a concedeu. Cada dia de nossa vida, cada hora e cada momento, participamos de Sua misericórdia imerecida. Se, por um lado, a graça é receber o que não merecemos, e a justiça é receber o que merecemos, por outro lado, a misericórdia é não receber o que merecemos. Essa é a única bem-aventurança que recompensa de acordo com o valor do preceito. Aqueles que são misericordiosos receberão a misericórdia de Deus. Começa e termina com misericórdia.

E, no entanto, Jesus não está dizendo que a misericórdia de Deus depende da nossa misericórdia. Tudo na vida espiritual começa e termina com Deus. Mostrar misericórdia é uma evidência de que recebemos misericórdia. O que Jesus está dizendo é que, à medida que Deus derrama Sua rica misericórdia sobre nós, respondemos mostrando misericórdia aos outros, o que nos faz receber ainda mais misericórdia de Deus.

Estendendo a mão

O exemplo de misericórdia em Calcutá, que possui uma das maiores populações de leprosos da Índia, ilustra isso. Embora o governo forneça pacotes de medicamentos para pacientes com lepra, a maioria dos leprosos não encontra ninguém disposto a cuidar de suas feridas. Os estudantes universitários da Bíblia com o Evangelho para a Ásia têm demonstrado a compaixão e o amor de Deus por aqueles que são evitados pela maioria da sociedade indiana, tratando das feridas dos leprosos. Como resultado desse esforço, o Senhor tem abençoado grandemente esses estudantes, com o surgimento de grupos de comunhão de novos crentes em muitas colônias de leprosos, e alguns deles têm crescido e se tornado igrejas. Recentemente, ouvi dizer que os crentes de uma igreja tiveram a alegria de enviar o primeiro jovem de sua colônia de leprosos para uma das faculdades bíblicas do Evangelho para a Ásia, para se preparar para o ministério em tempo integral. Como crentes, devemos sair no poder do Espírito, demonstrando a misericórdia de Deus para aqueles que estão ao nosso redor, os “leprosos espirituais”, para que Deus abençoe nossos esforços e nos permita dar muitos frutos que tragam glória a Ele e durem pela eternidade. A abundante misericórdia de Deus para conosco é a motivação para sermos misericordiosos com os outros. A graça é o favor mostrado aos indignos; a misericórdia é a compaixão para com os miseráveis. Portanto, a misericórdia é sinônimo de compaixão.

A misericórdia é uma característica divina e as Escrituras estão repletas de referências a essa parte de Sua natureza inata. Deuteronômio 4:31 diz: “Pois o Senhor, o seu Deus, é um Deus misericordioso…”. Neemias 9:31 afirma: “Mas, por causa da tua grande misericórdia, não os destruíste nem os abandonaste, pois és um Deus misericordioso e clemente”. Salmo 119:132 suplica: “Volta-te para mim e tem misericórdia de mim, como sempre fazes com os que amam o teu nome”. Daniel 9:18 implora: “Não nos dirijas a palavra por causa da nossa justiça, mas por causa da tua grande misericórdia”. Miquéias 7:18-19 celebra: “Quem é Deus como tu, que perdoa a iniquidade e perdoa o pecado do remanescente da sua herança? Ele não retém a sua ira para sempre, porque tem prazer na misericórdia. Tornará a ter compaixão de nós; pisará aos pés as nossas iniquidades e lançará todos os nossos pecados nas profundezas do mar”. Romanos 9:16 esclarece: “Assim, pois, isto não depende do que quer, nem do que corre, mas de Deus, que se compadece”. Efésios 2:4 descreve: “…sendo Deus rico em misericórdia”. Tiago 5:11 lembra: “Vós tendes ouvido falar da paciência de Jó e vistes o fim que o Senhor lhe deu; porque o Senhor é cheio de terna misericórdia”.

Se queremos ser semelhantes a Deus, devemos demonstrar misericórdia, porque nos tornamos mais semelhantes a Ele quando nossa compaixão se torna ação. João Crisóstomo, um dos primeiros líderes da igreja, declarou que a misericórdia imita a Deus e frustra o diabo. Lucas 6:36 nos apresenta o modelo que Deus estabelece para nós: “Sede misericordiosos, como também vosso Pai é misericordioso”.

A comunidade da compaixão

O desejo de Deus, expresso através da quinta bem-aventurança pregada pelo Senhor Jesus, é que sejamos a comunidade da compaixão. Essa comunidade da compaixão:

  • Ama a misericórdia (Miquéias 6:8).
  • Demonstra misericórdia (Zacarias 7:9): “…mostrem misericórdia e compaixão uns para com os outros”.
  • Responde à misericórdia (Romanos 12:1), oferecendo nossos corpos como sacrifício vivo, santos e agradáveis a Deus, que é nosso culto racional.
  • Possui misericórdia (Colossenses 3:12), vestindo-se diariamente de compaixão.
  • O ministério flui da misericórdia (2 Coríntios 4:1), pois, por misericórdia de Deus, temos este ministério.
  • O padrão de misericórdia é dado em Tiago 2:13, onde somos lembrados de que devemos mostrar misericórdia em vez de julgamento: “Porque o juízo será sem misericórdia sobre aquele que não usou de misericórdia; a misericórdia triunfa sobre o juízo”.

Em Lucas 10:25-37, Jesus conta a parábola do Bom Samaritano em resposta à pergunta de um intérprete da lei, que buscava saber quem era o seu próximo e a quem ele deveria ajudar e a quem poderia ignorar.

A história é a seguinte: um sacerdote, um levita e um samaritano “viram” um homem em apuros, mas apenas o samaritano teve misericórdia. Embora ambos os religiosos tenham vindo da presença de Deus, de alguma forma a presença de Deus nunca chegou até eles. “Mas um samaritano, que estava de viagem, chegou perto dele e, quando o viu, teve compaixão”…

Essa é uma reviravolta interessante, pois os judeus e os samaritanos se odiavam. Os samaritanos eram considerados hereges raciais e religiosos. No entanto, o samaritano reconheceu que algo estava errado e diminuiu a velocidade. Os três viram a necessidade, mas apenas o samaritano sentiu a necessidade: “ele teve compaixão dele”. “A misericórdia começa quando a dor toca o coração”. Foi exatamente esse sentimento que o samaritano teve. Ele ficou abalado ao ver o homem espancado. Então, movido por compaixão, ele agiu. A verdadeira misericórdia sempre envolve ação.

Assim, o samaritano demonstrou sua bem-aventurança ao cuidar das feridas do homem, colocá-lo em seu próprio animal (o que significava que ele próprio teria que andar), levá-lo para uma estalagem e cuidar dele. No dia seguinte, ele pagou ao dono da estalagem duas moedas de prata, o equivalente a dois dias de salário no primeiro século. Ele até prometeu retornar e cobrir todas as despesas adicionais. Jesus então pergunta: “Qual destes três te parece ter sido o próximo do homem que caiu nas mãos dos assaltantes?” O próximo é “Aquele que usou de misericórdia para com ele”. Jesus então diz ao intérprete da lei e a nós: “Vá e faça o mesmo”.

O padre Vieira, um homem piedoso que pregou nas terras brasileiras no século 17, apresenta essa mesma parábola por outro ângulo:

  • Os ladrões representam aqueles que não se importam com o próximo. Eles roubam, matam e destroem. São movidos pela antipatia. A palavra “patia” vem do grego “pathos”, que significa “envolver-se emocionalmente com amor”. Antipatia significa ser desprovido de “pathos”. Os ladrões pensam assim: “O que é seu é meu e eu quero para mim”.
  • Os religiosos representam aqueles que veem a necessidade, mas seguem adiante. São movidos pela apatia. Pensam assim: “O que é seu é seu e o que é meu é meu. Vamos mantê-lo assim”.
  • O samaritano representa aqueles que se importam e agem com misericórdia. São movidos pela empatia. Pensam assim: “O que é meu é seu e eu vou ajudá-lo”.

A Lei da Reciprocidade

Jesus afirmou que aqueles que são misericordiosos “obterão misericórdia”. Essa é a única bem-aventurança em que a promessa é igual à condição. Quanto mais reconhecemos a abundância de misericórdia que recebemos, mais somos capazes de compartilhá-la com os outros; e quanto mais mostramos misericórdia, mais a recebemos. O misericordioso receberá misericórdia porque já a recebeu, e esse ciclo é o que o torna misericordioso. É possível que Deus coloque pessoas oprimidas em nosso caminho nesta semana, permitindo-nos restaurá-las. Você será um misericordioso? Gostaria de convidá-lo a fechar os olhos agora enquanto leio algumas súplicas de misericórdia encontradas no Evangelho de Mateus.

Mateus 9:27: “Ao partir Jesus dali, seguiram-no dois cegos, gritando: ‘Tem misericórdia de nós, Filho de Davi!’” Mateus 15:22: “Uma mulher cananeia, vinda daquela região, clamava: ‘Senhor, Filho de Davi, tem misericórdia de mim! Minha filha está horrivelmente endemoninhada’”. Mateus 17:14-15: “Ao se aproximarem da multidão, um homem aproximou-se de Jesus, ajoelhou-se e disse: ‘Senhor, tem misericórdia do meu filho, pois é epilético e sofre muito’”. Mateus 20:29-34: “Quando saíam de Jericó, uma grande multidão os seguiu. Dois cegos estavam sentados à beira do caminho e, quando ouviram que Jesus estava passando, clamaram: ‘Senhor, Filho de Davi, tem misericórdia de nós!’ A multidão os repreendia, mandando que ficassem quietos, mas eles gritavam ainda mais: ‘Senhor, Filho de Davi, tem misericórdia de nós!’ Jesus parou, chamou-os e perguntou: ‘O que vocês querem que eu faça por vocês?’ Eles responderam: ‘Senhor, queremos receber a visão’. Jesus teve compaixão deles e tocou-lhes os olhos”. Amém!

CONCLUSÃO e APLICAÇÃO

Ao refletirmos sobre a bem-aventurança dos misericordiosos, podemos extrair valiosos ensinamentos do contexto histórico em que Jesus proferiu essas palavras. As críticas direcionadas aos líderes religiosos da época destacam a importância de amar a Deus e amar o próximo de forma genuína, em contraste com uma religiosidade vazia e desprovida de compaixão.

A misericórdia, que vai além da mera compaixão, é um atributo divino que reflete o caráter de Deus. Ao olharmos para o exemplo de Jesus, vemos que a misericórdia está intrinsecamente ligada à ação. Ele não apenas sentia compaixão pelas multidões, mas agia para aliviar o sofrimento delas, curando os enfermos e suprindo suas necessidades.

Somos desafiados a ser a comunidade da compaixão, amando e demonstrando misericórdia uns aos outros. Isso implica em responder à misericórdia de Deus, oferecendo nossos corpos como sacrifício vivo e manifestando compaixão diariamente em nossas interações com as pessoas ao nosso redor.

A prática da misericórdia nos leva a estender a mão aos necessitados, aos “leprosos espirituais” da nossa sociedade, e a ser agentes de transformação em suas vidas. Assim como o bom samaritano, devemos ser movidos pela empatia, reconhecendo a dor do outro e agindo para aliviar o sofrimento.

Ao demonstrarmos misericórdia, não apenas recebemos a misericórdia de Deus, mas também fortalecemos o ciclo da graça e bênção divina em nossas vidas. A misericórdia é uma via de mão dupla, em que tanto recebemos quanto damos, experimentando a abundância do amor e da compaixão de Deus em nosso próprio viver.

Portanto, que sejamos encorajados a buscar uma vida marcada pela misericórdia, imitando a Deus em sua compaixão e superando a apatia e a indiferença que nos cercam. Que a bem-aventurança dos misericordiosos seja uma realidade concreta em nossas vidas, à medida que nos tornamos canais da misericórdia divina para um mundo que necessita desesperadamente dela.

Que cada interação e cada ato de compaixão que praticarmos seja uma oportunidade de testemunhar o amor transformador de Deus. E que, por meio da nossa manifestação de misericórdia, sejamos instrumentos de cura e esperança para os que estão ao nosso redor.

Que o amor misericordioso de Deus continue a nos impulsionar a viver em conformidade com a bem-aventurança proclamada por Jesus: “Bem-aventurados os misericordiosos, porque alcançarão misericórdia”.


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Diego Souza

Sou ministro na Igreja Holiness e amo escrever. Graduando em Letras pela UNIVESP, com Bacharel em Teologia pela UMESP e com pós em Novo Testamento pela EST, neste blog compartilho meus pensamentos sobre a vida cristã e o cotidiano, buscando conectar a fé com o dia a dia.